Em carta ao EL PAÍS, Shakira revela por que escolheu Madri para sua residência na Europa

Daniela TrinCuriosidades1 hour ago8 Views

Em uma carta publicada pelo El País, Shakira refletiu sobre suas raízes, a latinidade e a escolha da Espanha para este novo capítulo. A artista colombiana escreveu o texto às vésperas do início de sua residência de 12 shows em Madri, que começa em 18 de setembro e já ultrapassou a marca de 600 mil ingressos vendidos. Para Shakira, porém, os números são apenas parte de um projeto que pretende ir muito além da música.

Logo no início da carta, a cantora recorre a uma das frases mais conhecidas de Gabriel García Márquez, sobre as estirpes condenadas a cem anos de solidão. Shakira conta que, durante a infância, interpretava a frase como uma advertência, mas que hoje prefere enxergá-la como um desafio: a possibilidade de uma “segunda oportunidade” estaria justamente na capacidade de criar vínculos, abraçar e não deixar o outro sozinho.

Uma resposta à discriminação

Shakira revela que sua decisão de transformar a residência em uma grande celebração nasceu também de um sentimento de dor diante da perseguição sofrida por imigrantes latinos. Em vez de responder apenas com indignação, ela diz ter escolhido celebrar a identidade latina “com toda a força, toda a alegria e toda a dignidade do mundo”.

É nesse contexto que a cantora explica por que escolheu Madri. Segundo ela, a capital espanhola representa um lugar onde a imigração latina não é apenas tolerada, mas celebrada. Shakira relaciona essa integração à história compartilhada entre Espanha e América Latina, destacando a língua, a memória, os costumes e os laços culturais que atravessam o Atlântico.

“Uma cidade” para celebrar a cultura latina

O projeto de Shakira também prevê uma estrutura cultural de 30 hectares ao lado do estádio, reunindo mais de cem artistas e diferentes manifestações culturais, como literatura, dança, música, moda, gastronomia, cinema e arte. A proposta é apresentada como um espaço de encontro e celebração da diversidade latina.

A iniciativa é inspirada em Gabriel García Márquez e em Macondo, universo criado pelo escritor colombiano. A cantora afirma que o escritor foi um grande explorador da mistura cultural e dos vínculos que formam a identidade latino-americana.

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A solidão na era digital

Outro dos principais temas da carta é a solidão. Shakira afirma que, embora não rejeite o futuro e a tecnologia, a era digital possui uma capacidade inédita de isolar as pessoas. Para ela, milhões de indivíduos acompanham a vida dos outros por meio das telas enquanto se tornam cada vez mais solitários e ansiosos.

É nesse ponto que a cantora apresenta aquilo que considera uma contribuição da cultura latina: o abraço, a dança, a mesa compartilhada e o vínculo humano. Para Shakira, a música tem justamente a capacidade de fazer o contrário da tela: enquanto a tela separa, a música aproxima.

“Uma canção não te pergunta de onde você vem nem qual passaporte você tem”, escreve a artista. A música simplesmente convida a cantar, dançar e até chorar junto — e, nesse processo, a pessoa deixa de estar sozinha.

“Eu sou essa mistura”

A reflexão sobre a latinidade também passa pela própria história de Shakira. A cantora descreve sua identidade como resultado de diferentes culturas: as raízes espanholas, o ritmo do Oriente Médio herdado do pai, a influência africana presente na cultura de Barranquilla e a resiliência dos povos originários da Colômbia.

Ela cita ainda San Basilio de Palenque, comunidade colombiana onde sobrevive uma língua de origem africana e que foi o primeiro povoado livre da América. Shakira também lembra que tem dois filhos espanhóis e afirma que a mistura cultural não terminou há cinco séculos — ela continua acontecendo no presente.

“Eu não falo da mistura: eu sou essa mistura. Minha música é essa mistura”, afirma.

Shakira propõe ampliar o conceito de “hispanidade”

Um dos pontos centrais da carta é a defesa de um conceito mais amplo de latinidade. Shakira afirma que a ideia de “hispanidade” é bonita, mas não seria suficiente para representar toda a diversidade cultural da América Latina.

Ela lembra que o português, o italiano e o francês também são línguas latinas e destaca especialmente o Brasil, o maior país da América Latina, que não fala espanhol, mas português. Para a cantora, enquanto a hispanidade não consegue abarcar plenamente essa diversidade, a latinidade seria capaz de reunir todos esses povos.

“Somos uma nação sem fronteiras”, afirma, definindo essa identidade como resultado da mistura entre África, América e sul da Europa.

O carnaval como símbolo da união

Para encerrar cada noite da residência, Shakira escolheu o carnaval como símbolo dessa mistura cultural. A cantora pretende reunir referências de Cádiz, das Ilhas Canárias, de Barranquilla, do Brasil, do Caribe e da América Central.

O carnaval, em sua visão, representa África, América e Europa dançando juntas. Por isso, ela o define como um “ato psicomágico”, capaz de transformar em celebração a ideia central de todo o projeto.

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A carta termina retomando a referência a García Márquez e transformando a frase sobre os cem anos de solidão em uma mensagem de esperança: a solidão não precisa durar cem anos e aqueles que aprendem a se abraçar podem ter uma segunda oportunidade.

Tradução completa da carta de Shakira

“Em Madri, somos todos latinos”

Há uma frase que me acompanha desde criança, embora tenha levado anos para compreendê-la por completo. É de Gabriel García Márquez e diz que as estirpes condenadas a cem anos de solidão não têm uma segunda oportunidade sobre a terra. Sempre a li como uma advertência. Hoje a leio como um desafio: e se a segunda oportunidade existisse? E se ela estivesse onde sempre esteve, no vínculo, no abraço, em não nos deixarmos sozinhos?

Daqui a 18 dias, começo em Madri uma residência de 12 shows. Os números me impressionam: mais de 600 mil ingressos, a maior residência da história da Europa, um estádio para 55 mil pessoas que se ergue em Villaverde, construído para a música e não para o futebol. Mas não escrevo para falar de números, e sim para contar o porquê.

Isso começou com dor. Começou quando vi nossa gente sendo perseguida pelo simples fato de ser latina, famílias obrigadas a viver com medo. Diante disso, a raiva é legítima. Mas eu escolhi responder com uma celebração: a maior que fôssemos capazes de imaginar. Porque a resposta mais poderosa ao medo é existir com toda a força, toda a alegria e toda a dignidade do mundo.

E, para essa celebração, escolhi Madri. Porque aqui acontece algo que o mundo merece ver: a imigração latina não é tolerada, é celebrada. A Espanha a acolheu, e esse acolhimento a tornou mais jovem, mais pujante, mais criativa. A integração comove por sua naturalidade, talvez porque, cinco séculos atrás, foram os espanhóis que atravessaram o oceano. Compartilhamos língua, memória, gestos, longas conversas à mesa. O Atlântico, entre nós, deixou de ser um oceano há muito tempo. É um laço.

Diz-se de Madri que quem não é de lugar nenhum é daqui. Por isso, ao lado do estádio, estamos construindo algo mais: uma cidade. Trinta hectares para celebrar e compreender nossa cultura, com mais de cem artistas amigos, onde cada visitante poderá percorrer o universo latino pelo caminho que escolher: literatura, dança, música, moda, gastronomia, cinema, arte. Uma cidade para nos encontrarmos, atravessada por um conceito que é o coração de tudo isso: o vínculo latino na era da solidão digital.

Vivemos uma época extraordinária e perigosa ao mesmo tempo. Não sou das que renegam o futuro, mas já sabemos algo com certeza: esta época tem uma capacidade inédita de nos isolar. Milhões de pessoas observam a vida dos outros através de uma tela, cada vez mais sozinhas, mais ansiosas, mais doentes. A solidão se tornou uma epidemia silenciosa que os médicos já medem como qualquer outra doença. Eu senti isso. Você sentiu isso.

Diante dessa epidemia, nós, latinos, temos algo a oferecer. Não é ciência, é algo anterior à ciência. Está em nosso DNA cultural: o abraço, a dança, a mesa compartilhada, o vínculo como forma de sobrevivência. Somos uma cultura que transformou a dor em ritmo, que aprendeu, em cinco séculos de mistura, que ninguém se salva sozinho. O mundo inteiro percebe isso intuitivamente: por isso nossa música e nossa dança atravessam todas as fronteiras. O mundo não consome o latino por moda: ele o procura porque reconhece nele as ferramentas de que vai precisar. A receita contra a solidão digital já existe. Fomos nós que a escrevemos, sem saber, durante quinhentos anos.

E, se falo de mistura, falo de mim. Nasci em um continente que leva o nome de um italiano, Américo Vespúcio. Em um país que leva o nome de outro, Colombo, que atravessou o oceano financiado pela Coroa espanhola. Cresci em Barranquilla, onde o coração aprende a bater no ritmo do tambor africano antes de aprender a falar.

Na minha Colômbia existe um povoado, San Basilio de Palenque, onde ainda se fala uma língua nascida na África — e que foi o primeiro povoado livre da América. Carrego no sangue os espanhóis que vieram para a América, nos quadris o ritmo do Oriente Médio do meu pai e a resiliência dos povos originários desta terra. E tenho dois filhos espanhóis; a mistura não terminou há cinco séculos: continua acontecendo agora, neles. Eu não falo da mistura: eu sou essa mistura. Minha música é essa mistura. E o que quero celebrar em Madri é, simplesmente, como nos fez bem estar tão misturados.

García Márquez foi o grande explorador desse território. Ninguém compreendeu como ele os vínculos, a imaginação, a felicidade, a mistura que somos. Macondo não é um povoado: é um espelho. Por isso ele inspira tudo o que estamos construindo: ensinou-nos que, em nossa cultura, o real e o mágico convivem sem conflito, e que isso não é ingenuidade, mas sabedoria.

E quero propor algo mais, com todo o respeito e todo o carinho. Não falemos apenas de hispanidade: falemos de latinidade, um abraço ainda mais amplo. A hispanidade é bela, mas é insuficiente para abarcar tudo o que somos. O espanhol é latino; o português, o italiano e o francês também. E todos os latino-americanos somos latinos. O Brasil, o maior país da América Latina, não fala espanhol, fala português. A hispanidade não consegue abraçá-lo; a latinidade, sim.

Somos uma nação sem fronteiras que vem sendo construída há cinco séculos: a mistura da África, da América e do sul da Europa. Não julgo, com o olhar de hoje, os seres humanos de quinhentos anos atrás; fico com aquilo que somos: uma fusão que é nossa riqueza.

E é aí que entra a música, meu ofício, minha vida inteira. Porque a música faz exatamente o contrário da tela. A tela separa; a música reúne. Uma canção não pergunta de onde você vem nem qual passaporte você tem. Ela diz: cante comigo, dance comigo, chore comigo, se for preciso. E, de repente, você já não está sozinho.

Por isso, o encerramento de cada noite será um carnaval. Porque o carnaval é a expressão máxima de um povo que nasceu dessa fusão. Como não passar por Cádiz e pelas Ilhas Canárias, pela minha Barranquilla, pelo Brasil, pelo Caribe, pela América Central? O carnaval é África, América e Europa dançando juntas, cores, talentos, abraços, risos. Será nosso ato psicomágico: todos juntos, dizendo em voz alta o que este projeto quer demonstrar.

Que, em Madri, somos todos latinos.

Que a solidão não precisa durar cem anos.

E que as estirpes que aprendem a se abraçar têm, sim, uma segunda oportunidade sobre a terra

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