
Há vinte anos, Shakira abriu para o mundo uma janela que deixava passar luz, cor e movimento: o Carnaval de Barranquilla. E fez isso com um hino que ainda hoje pulsa como se tivesse sido lançado ontem — Hips Don’t Lie — a música que ensinou ao planeta inteiro que “En Barranquilla se baila así”.
Ninguém imaginava que alguém pudesse dançar daquele jeito. Até que, há duas décadas, uma garota barranquilheira mostrou ao mundo que suas caderas não mentem — e nunca mentiram.
Desde então, Hips Don’t Lie ecoa em cada canto do planeta, convocando qualquer pessoa, de qualquer cultura, a levantar, se mexer e se render ao ritmo que Shakira eternizou.
Para este sucesso, Shakira se juntou a Wyclef Jean na reedição do álbum Oral Fixation Vol. 2 (2006). O hit leva um sample de Amores como el nuestro, de Jerry Rivera, e nasce a partir de Dance Like This, música anterior do rapper haitiano.
A faixa foi ao ar pela primeira vez em 14 de fevereiro de 2006 na rádio KIIS-FM, em Los Angeles. Virou single oficial em 28 de março na América do Norte, chegou à América Latina e à Europa em abril e estreou no Reino Unido em 19 de junho.
Com cerca de 11 milhões de unidades vendidas, Hips Don’t Lie se tornou uma das músicas mais baixadas do ano. Misturando espanhol e inglês, com alma de cumbia colombiana, explodiu como o maior sucesso mundial de Shakira, alcançando o número 1 em mais de 30 paradas oficiais.
Superou inclusive clássicos da própria artista, como Whenever, Wherever, Underneath Your Clothes, Waka Waka, La Tortura e Loca.
Em seus 3 minutos e 38 segundos — agora históricos — existe um momento que faz qualquer barranquilheiro arrepiar: aquele golpe certeiro de “En Barranquilla se baila así”.
Não foi apenas uma frase. Foi uma declaração. Uma certidão de origem. Shakira não cantou: ela encarnou o orgulho de sua cidade.
No clipe, abriu a porta por onde o Carnaval entrou desfilando para o mundo: congos, garabatos, Son de Negro, cores vibrantes. Era como dizer que, mesmo cantando em inglês e sendo ouvida nos quatro cantos do planeta, suas raízes continuavam firmes.























E porque um Carnaval de verdade nunca chega sozinho, Shakira não chamou uma rainha — chamou duas.
Em meio à explosão da cumbia no clipe, apresentou ao mundo Claudia Patricia “Cuca” Guzmán Certain (Rainha 2000) e Kathy Flesch Guinovart (Rainha 2005).
Kathy lembra que nada foi planejado. Ela acabara de encerrar seu reinado quando recebeu uma ligação que mudaria a maneira como o planeta veria Barranquilla.
“Shakira queria incluir elementos típicos do Carnaval no vídeo. Uma amiga em comum me ligou do nada: ‘Quer vir comigo para Los Angeles gravar Hips Don’t Lie?’. Tive literalmente 24 horas para decidir.”
Na noite anterior, estavam em uma festa carnavalesca em Miami. Ao amanhecer, Kathy e ‘Cuca’ embarcavam rumo a Los Angeles, sem sequer ter tempo de compreender o tamanho daquele momento.
“Dividimos o quarto no hotel, conhecemos Shakira… tudo muito natural, como se já nos conhecêssemos há anos.”
No set, gravaram com um grupo de dançarinas e, ao final, Shakira perguntou:
“Vocês acham que esse vídeo vai pegar?”
Kathy ri ao lembrar:
“Ela não tinha ideia do que estava prestes a acontecer. Dissemos que estava incrível. O resto… é história.”
E que história. Para Kathy, o impacto na imagem da cidade foi imediato:
“A música internacionalizou o Carnaval. Todo mundo repetia ‘En Barranquilla se baila así’, até quem não falava espanhol. Quando eu dizia que era de Barranquilla, respondiam: ‘Like the song’. A partir daí, eu explicava o Carnaval, nossa dança, nossa identidade. A música colocou Barranquilla no mapa.”
‘Cuca’, fã assumida da superestrela, não pensou duas vezes:
“Fiz minha mala e fomos para Hollywood. Ensaiamos das 8h ao meio-dia e depois gravamos. Shakira é perfeccionista — nos ensinou até como virar a mão, tudo milimétrico.”

Para Juan José Jaramillo, diretor do Carnaval de Barranquilla, o impacto de Hips Don’t Lie vai muito além das reproduções ou do sucesso mundial. A canção, segundo ele, carimbou o ADN barranquilheiro no mapa cultural do planeta.
“Ter uma música global carregando nosso selo desde 2006 é poderoso. ‘En Barranquilla se baila así’ prova que nossa cultura ultrapassa fronteiras, conecta corações e faz o mundo se mover como se tivesse nascido aqui.”
Ele afirma que a música foi, para milhões, a primeira janela para a essência do Carnaval — essa celebração que nasce nas ruas, nos criadores, no sangue caribenho.
Por isso, o slogan deste ano foi: “En Barranquilla se baila así”.
Em 2025, Shakira viveu o Carnaval de perto. Invadiu a noite da Guacherna depois de duas apresentações históricas no estádio Metropolitano com sua turnê Las Mujeres ya no lloran.
Em dois shows memoráveis, colocou o sombrero vueltiao, tocou tambora, dançou mapalé e ainda levou ao palco a Rainha do Carnaval 2025, Tatiana Angulo Fernández De Castro, enquanto cantava Te Olvidé.
Não existe gesto mais carnavalesco do que esse.
“A mistura de ritmos, a energia da coreografia e a referência explícita a Barranquilla plantaram no mundo a ideia de uma festa vibrante e autêntica, mesmo para quem nunca a viu.”
A visita da cantora impulsionou o turismo além do esperado.
Para a locutora Joyce Lozano, não há dúvida: Hips Don’t Lie é um fenômeno impossível de explicar por completo.
“São 20 anos, e ela continua tão especial quanto no dia em que nasceu. Onde Shakira canta essa música, algo acontece. É magia. É cumbia. É tudo.”
Segundo ela, não importa se Shakira canta na China ou no Alasca — as pessoas automaticamente pensam em Barranquilla.
Joyce lembra do lançamento em Los Angeles, quando Shakira admitiu jamais ter imaginado que o hit se tornaria global.
A força da música, diz ela, está na combinação perfeita: um toque urbano, uma pitada de reggaeton, a alma da cumbia, trompetes que lembram a salsa e um refrão impossível de esquecer.
Ela se emociona ao lembrar da apresentação no encerramento da Copa de 2006 e dos palcos do MTV.
“Foi um boom mundial, um som pegajoso, que marcou gerações.”
E, o mais surpreendente, o tempo não a enfraqueceu.
“Essa música nasceu para ficar. É de todas as gerações. Shakira é um gênio. Hips Don’t Lie não envelhece — e nunca vai envelhecer.”
Vinte anos depois, Hips Don’t Lie ganhou um novo sopro de vida com uma regravação especial para o Spotify Anniversary, desta vez unindo Shakira a dois nomes de gerações diferentes: Ed Sheeran e o colombiano Beéle. A fusão inesperada entre o pop britânico de Sheeran e a energia costeña de Beéle reconectou o hit às novas audiências, sem perder sua essência. Foi como se a música abrisse outra vez as portas do Caribe para o mundo — agora em um diálogo musical que atravessa continentes, gêneros e gerações. A nova versão não só homenageia os 20 anos do clássico, como prova que seu ritmo, sua força e sua identidade continuam mais vivos do que nunca.






