A alma não tem passaporte: após se apresentar com Shakira, Alejandro Sanz reflete sobre a latinidade para o El País

Daniela TrinCuriosidadesYesterday35 Views

Após participar de um show de Shakira, o cantor espanhol Alejandro Sanz compartilhou uma reflexão sobre identidade, pertencimento e os laços culturais que unem os povos latinos. Em um texto escrito para o jornal El País e marcado por referências a Gabriel García Márquez, ao carnaval e à música, o artista defendeu uma visão ampla de latinidade, que ultrapassa fronteiras geográficas e diferenças linguísticas.

Sanz iniciou sua reflexão mencionando um texto publicado por Shakira em 31 de agosto, no qual a cantora teria retomado a ideia de que a solidão não precisa durar cem anos, em referência à obra Cem Anos de Solidão, de García Márquez. Para o cantor, superar o isolamento exige abrir espaço para o outro, derrubar barreiras e reconhecer que a convivência pode ser muito mais ampla do que se imagina.

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“Para curar esse frio, não basta olhar para nós mesmos no espelho: é preciso ampliar a casa, abrir as portas de par em par, derrubar as paredes e perceber que a mesa é muito maior do que nos contaram”, escreveu.

Ao comentar a mensagem de Shakira, Sanz afirmou que se sentiu motivado a responder a partir de suas próprias experiências e convicções. Segundo ele, a cantora aborda temas como vínculo, memória e a transformação da dor em ritmo, elementos que também fazem parte de sua trajetória artística.

O cantor destacou ainda uma ideia que, segundo ele, tem ganhado força em Madri: a de que a capital espanhola, a Espanha e a América Latina compartilham uma identidade latina. Para Sanz, essa perspectiva supera discussões sobre os limites entre os termos “hispânico” e “latino”.

“O hispânico não tira nem um pouco do brilho do latino, assim como o latino não vem despojar o hispânico de sua raiz. Não são forças que se anulam; são camadas do mesmo pulsar”, afirmou.

Na avaliação do artista, a latinidade representa um espaço cultural mais amplo, capaz de reunir diferentes povos, histórias e tradições. Ele defendeu que essa identidade não deve ser compreendida apenas como uma origem geográfica, mas como uma forma de enxergar a vida e de se relacionar com os outros.

“Ser latino não é um ponto de origem no mapa: é uma temperatura, um pudor diferente diante da distância, uma incapacidade quase biológica de aceitar que a vida seja vivida sozinho”, escreveu.

Sanz também citou países e regiões que, em sua visão, fazem parte dessa grande comunidade cultural, como Portugal, Itália, Brasil, México, os países do Caribe e as nações da América Latina. Ao falar sobre essa diversidade, o cantor destacou especificamente o Brasil e o Rio de Janeiro como símbolos dessa identidade latina.

“A latinidade é uma língua anterior às palavras: é a saudade portuguesa, a luz madura da Itália, a força do Rio de Janeiro, a dignidade ancestral do México, a mística do Caribe e o impulso do sul europeu”, escreveu.

Para ele, a força dessa identidade está justamente na diversidade e na capacidade de criar conexões mesmo quando os idiomas e os costumes são diferentes.

“Nossa força não está em sermos idênticos, mas em nos entendermos sem explicações”, afirmou.

Madri também ocupou um lugar central na reflexão do cantor. Ele descreveu a cidade como um ponto de encontro entre diferentes culturas e destacou sua capacidade de acolher pessoas sem exigir que elas abandonem suas origens.

“Madri se tornou, quase sem se dar conta, o coração pulsante desse encontro”, escreveu. Para Sanz, a cidade representa uma convivência em que ninguém precisa se sentir estrangeiro.

O carnaval foi outro elemento destacado pelo artista. Ao mencionar sua ligação com Cádiz, Sanz afirmou que a festa representa mais do que entretenimento. Para ele, o carnaval é uma forma de expressão popular e uma maneira de defender a dignidade por meio da música, da irreverência e da ocupação das ruas.

“O carnaval não é uma festa de vitrine, mas uma trincheira moral”, declarou.

O cantor relacionou as tradições de Cádiz às murgas do Rio da Prata, às comparsas caribenhas e ao carnaval do Rio de Janeiro. Segundo ele, todas essas manifestações compartilham a capacidade de transformar o cansaço em música e enfrentar a dor com humor e criatividade.

Na parte final do texto, Sanz criticou o isolamento provocado pelo uso excessivo das telas e pelas relações digitais. Para ele, a cultura latina oferece uma resposta baseada na convivência, na música e no contato humano.

“Diante desse isolamento, nossa cultura propõe aquilo que nossos antepassados inventaram sem perceber: uma mesa posta, um violão passando de mão em mão e duas pessoas dançando coladas”, escreveu.

Ao concluir, o artista afirmou que, mesmo depois que os estádios esvaziam e as luzes se apagam, permanece a sensação de pertencimento entre pessoas que compartilham valores e experiências semelhantes.

“Somos uma única grande nação latina, uma estirpe indomável que aprendeu a lutar contra o frio do mundo à força de poesia, memória e abraço”, declarou. Para Sanz, enquanto houver reconhecimento e solidariedade entre esses povos, nenhuma fronteira será capaz de separá-los.

Texto na íntegra

Diz minha querida Shakira, relendo o mestre Gabriel García Márquez em seu precioso texto do último dia 31 de agosto, que a solidão não precisa durar cem anos. Para curar esse frio, não basta olhar para nós mesmos no espelho: é preciso ampliar a casa, abrir as portas de par em par, derrubar as paredes e perceber que a mesa é muito maior do que nos contaram.

Ela escreve a partir do tambor e da memória, com aquele arrepio inevitável das coisas verdadeiras. E quando escuto Shakira falar sobre o vínculo, sobre a dor transformada em ritmo e sobre essa segunda oportunidade sobre a terra, não consigo evitar responder-lhe no compasso, das entranhas, com o coração na mão. Vejo estes dias cruzar pelo ar de Madri uma ideia que reconforta meu olhar: Madri é latina, a Espanha é latina, a América é latina. Gosto do pulso dessa ideia porque ela não faz rodeios. Passamos tempo demais enredados em debates de corredor, em uma espécie de burocracia do idioma que pretende medir com régua e esquadro se somos hispânicos ou latinos, como se a identidade fosse um trâmite alfandegário. E assim continuamos, em um beco sem saída. O hispânico não tira nem um pouco do brilho do latino, assim como o latino não vem despojar o hispânico de sua raiz. Não são forças que se anulam; são camadas do mesmo pulsar. Mas, se todos nós temos que dar um nome à casa comum, escolhamos um em que a porta seja suficientemente larga para que ninguém fique tremendo do lado de fora. A hispanidade é bela e profunda, mas às vezes fica apertada nas costuras quando tentamos abarcar tudo o que sentimos. A latinidade, por outro lado, é um território infinitamente mais amplo, um refúgio que não exige passaporte nem pede explicações.

Ser latino não é um ponto de origem no mapa: é uma temperatura, um pudor diferente diante da distância, uma incapacidade quase biológica de aceitar que a vida seja vivida sozinho. Traça uma linha invisível que sobe do Cabo Horn até os bairros latinos dos Estados Unidos, atravessa o Atlântico e integra o sul da Europa, de Portugal à Itália, passando pelo gigante luminoso que é o Brasil. Nós, latinos, somos uma grande nação: uma arquitetura de afetos que não precisa de fronteiras, ministérios ou exércitos. Não existe em todo o planeta outro grupo de povos que compartilhe tanto sem precisar forjar isso. A latinidade é uma língua anterior às palavras: é a saudade portuguesa, a luz madura da Itália, a força do Rio de Janeiro, a dignidade ancestral do México, a mística do Caribe e o impulso do sul europeu. Há mais de cinco séculos nos construímos à força de mistura, dor superada e alegria rebelde. E de tudo o que permanece. Nossa força não está em sermos idênticos, mas em nos entendermos sem explicações. O espanhol é a espinha dorsal de muitos de nossos povos, um milagre que permite que uma palavra dita em Madri ressoe com a mesma precisão poética em Veracruz, Cartagena ou Montevidéu. Mas mesmo onde a língua muda, a latinidade permanece intacta porque compartilhamos a mesma maneira de olhar para a vida e a mesma incapacidade de compreender a existência sem uma mesa compartilhada e uma conversa noite adentro.

E Madri se tornou, quase sem se dar conta, o coração pulsante desse encontro. Não assimila quem chega nem lhe pede que renuncie às suas lembranças; prefere deixar-se despentear por ele. Tem aquela rara sabedoria das cidades acolhedoras, onde ninguém se sente estrangeiro porque não perguntam de onde você vem, mas a que horas você marcou de se encontrar.

Fico emocionado que Shakira celebre o carnaval em sua proposta. Para mim, a quem Cádiz corre pelo sistema nervoso, o carnaval não é uma festa de vitrine, mas uma trincheira moral. Ele me ensinou que o compasso e a irreverência são formas muito sérias de defender a dignidade: é o momento sagrado em que as pessoas tomam posse da esquina e cantam as verdades para o mundo. Há um fio umbilical indestrutível entre La Viña, em Cádiz, as murgas do Rio da Prata, as comparsas caribenhas e o pulsar do Rio. Em todos os lugares, saímos às ruas com a mesma urgência: transformar o cansaço em canção e rir da dor para que ela não ria de nós. Hoje, o perigo não traz canhões; vem na forma de uma tela fria. Estamos nos tornando viciados nessa solidão digital que congela nossas mãos. Diante desse isolamento, nossa cultura propõe aquilo que nossos antepassados inventaram sem perceber: uma mesa posta, um violão passando de mão em mão e duas pessoas dançando coladas.

Quando os estádios esvaziam e as luzes se apagam, resta apenas o que há de autêntico: a certeza de que somos as mesmas pessoas procurando uma voz amiga no meio da noite. Que os eruditos discutam as nuances do dicionário, mas façamos isso juntos. Somos uma única grande nação latina, uma estirpe indomável que aprendeu a lutar contra o frio do mundo à força de poesia, memória e abraço. E enquanto soubermos nos reconhecer nos olhos uns dos outros, não haverá mapa capaz de nos dividir.

https://elpais.com/gente/2026-09-27/el-alma-no-tiene-pasaporte.html?outputType=amp&fbclid=PAdGRleAUmPApleHRuA2FlbQIxMQBwZG9mAmZkaWQWUPNPokAvcu9VD5cfp8VpK95w-sOVjXNydGMGYXBwX2lkDzEyNDAyNDU3NDI4NzQxNAABp_WR7qK5rgZIsXicW-6xO4UEub7CtBZUVEosvXX9iTzSA4uvCMbWR80WKxLK_aem_ecbKMbTTJzsoGndhbllTWw

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